quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma Baixa no Caminho

Hoje tenho a sensação de ter perdido um soldado em meio a uma guerra. Sensação que sentimos ao olharmos um filme triste onde a impotência marca as cenas mais fortes. Minha aluninha com Síndrome de Down foi transferida de escola. Sei que foi para o melhor dela. Sei que a mudança não foi pela escola, mas pela rede na qual se encontra. A rede estadual hoje em dia deixa muito a desejar no que tange as questões mais delicadas de amparo ao aluno com necessidades especiais. Minha aluninha conseguiu uma transferência com a ajuda da psicopedagoga para ter atendimento extra no Centro de Integração e Recursos da rede municipal de educação.
Quando conversamos na semana passada sobre esta possibilidade falei à psicopedagoga que não queria transferir meu desafio de ser efetiva para com a menina, contudo concluímos que o Estado ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à inclusão escolar.
Acho até estranho pensarmos numa escola que não seja inclusiva! Isto nem pode existir!!!
Entretanto falo do amparo mínimo necessário às condições de bem estar e potencial de trabalho. A escola não é creche, nem depósito de crianças. A escola tem a missão real de desenvolver potencialidades e não doutrinar ações.
Apesar de saber disto, saber daquilo, estou muito triste. Nem sei quantificar este vazio. Parece um fracasso. Parece que minha intuição (pois foi isto o indicado a usar com minha aluna até pela psicóloga) falhou ou foi incapaz de fazer brotar frutos mais viçosos.
Lembro-me do que todos falam. Das palavras de incentivo, de parabenização pelo trabalho que faço, palavras de consolo da psicopedagoga e me acalmo... até lembrar que a perdi e com ela a possibilidade de aprender algo novo.
Agora, entre meu egoísmo infantil e uma situação que provoque mudanças mais rápidas e uma assessoria mais justa para ela, prefiro ficar remoendo minha tristeza e acreditando que é possível fazer melhor. Não devemos reinventar a roda!!!!!! Precisamos conhecer o estado da arte sobre nossos desafios e em relação ao caso de minha pitoca era claro que ela não estava no local certo.
O município teve há poucos dias um caso de Down de um menino com oito anos que fora direcionado à APAE para uma adaptação e posterior inclusão na escola regular. Se minha aluninha pensa ainda como uma criança de dois anos (segundo a psicóloga e a psicopedagoga) como poderia achar atrativa a sala de aula por mais malabarismos que eu fizesse? É preciso respeitar antes de tudo o sentimento da criança para não promover uma falsa inclusão que oprime, assusta e afasta ao invés de ligar sentimentos e humanizar as pessoas. Somos mais que números ou nomes. Somos vivos e portanto sentimos intensamente os fatos!

Um comentário:

Beatriz disse...

Tati, não consigo ver fracasso: ao contrário, a ida dela para uma escola especializada é profundamente gratificante. Agora sim, esperamos que ela seja atendida em função de suas necessidades. No entanto, gostaria de te levantar algumas questões:O que é para ti escola inclusiva? Se eu tiver um talento precoce para a música, devo entrar na escola de medicina porque a escola precisa ser inclusiva? Inclusiva é ter os elementos necessários para poder trabalhar verdadeiramente as diferenças e abrir caminho para que elas passem para outros estágios. Assim, não seria um excelente exemplo de escola inclusiva aquela que abriu a chance de um aluno de 14 anos ( no final do fundamental) ir para a Universidade tal o grau de competência e de conhecimento que ele já tinha? Se alguém é surda, tem uma cultura e um expressão linguística toda própria: será que a escola regular ao recebe-la e inclui-la na cultura dos que ouvem é inclusiva? Será que as políticas publicas não estão confundindo estar na escola com inclusão? Não deveríamos, nós professores, levantar essa questão sob o foco real da política pública? Um abração
Bea